Eu tinha 21 anos e muita sede de vida. Estava começando no emprego novo, mal tinha um comprovante de residência, primeiro ano de faculdade, muitos amigos de bar e uma cidade enorme ainda pra eu descobrir.
Pensei muito no meu pai, de como ele foi o melhor pai do mundo quando eu era criança e de como eu não sabia nem seu paradeiro nos dias atuais, pensei na minha mãe e na decepção que seria para ela ter uma filha mãe solteira, pensei nos olhares duros e críticos dos familiares (já que como família, nunca senti que gostassem de mim) e pensei na minha capacidade de ser mãe, até então, nenhuma; eu mal cuidava direito de mim.
Lembro de abrir a porta de vagar, olhar o apartamento vazio, abrir a janela, pegar a bula do teste e correr para o banheiro. 27 segundos depois estava ali, as duas linhas que mudariam todo planejamento de vida que eu tinha imaginado até então.
O coração bateu forte, bem forte, as mãos tremularam, a cabeça ficou zonza e o desespero bateu. E como eu chorei! Lembro de ter corrido pra sala, enfiado a cara em uma almofada e gritado, gritado, gritado até a palpitação parar e eu não ter mais lágrimas para chorar.
Em seguida fui fazer o exame de sangue para confirmar. Engraçado como eu queria tanto que o resultado fosse negativo que eu sentia que a força do meu pensamento pudesse mudar alguma coisa.
Quanta ingenuidade!
No dia seguinte depois de alguns minutos de sono, lembro que foi impossível dormir, tomei um banho gelado, fui trabalhar. Fiz tudo errado. Não conseguia parar de pensar na possibilidade daquilo estar errado, afinal de contas, minha vida já era ruim o suficiente para aquilo estar acontecendo comigo. Tomei uma decisão. Iria abortar!
Eu não queria aquilo, aquela coisa, aquele ser dentro de mim me sugando e sugando todas as noites de diversão da minha vida. Nunca quis mesmo ter filho, não vai ser agora por acidente que terei.
A noite passou, o trabalho chegou ao fim e a volta pra casa foi tranquila, afinal, já estava decidido. eu não iria ter aquele bebê.
Subi correndo as escadas e peguei o exame de sangue, positivo, claro. Ja fui logo procurando meios para resolver aquele probleminha.
Passou uma semana. O trabalho já não ia bem afinal, impossível concentrar em alguma coisa com um 'alien' crescendo dentro da minha barriga. Eu odiava aquela sensação. Então eu que achava que a força do pensamento poderia mandar em alguma coisa comecei a sangrar interruptamente. No hospital me disseram que havia sido aborto expontaneo. Que ótimo, nem dinheiro iria gastar com isso. Tudo certo, vida que segue.
Duas semanas depois de contínuos enjoos e sensações ruins fiz a primeira ultrasson para até então fazer a curetagem e adivinhem quem estava lá? Com o coração batendo mais forte e ritmado do que o meu. Aquela primeira sensação de desespero estava de volta e o choro misturou raiva, medo e um sentimento fraterno que eu não consegui explicar. Eu apenas me senti capaz e tinha certeza que seria capaz de enfrentar qualquer muralha que atravessasse meu caminho. E ainda bem que quando olhei pro lado, eu não estava assim tão sozinha.
As duvidas então tomaram conta novamente e único som que eu ouvia eram as batidas daquele coraçãozinho. Era meu, todo meu, alguém que eu pudesse preencher todo o vazio que sempre andou dentro de mim. Eu iria ser mãe! Mesmo sem entender nem estar preparada para isso, só sabia que era capaz por mim e por ele. Senti vida dentro de mim! Era mais forte que meu medo, mais forte que os olhares, os comentários, os risos maldosos e torcida para que dessem tudo errado só pra dizerem um simples, "Eu avisei!"
Como as pessoas podem ser tão maldosas! Como julgar é tão fácil. Ser mãe solteira não é vergonha, é orgulho e capacidade, é amor acima de qualquer status ou julgamento da mente doentia e maldosa humana. É batalhar com raça e vontade e ter força o suficiente. Apenas depender de um sorriso da pessoa mais linda que poderia ter entrado na minha vida, o meu filho, a minha vidinha, o meu amor incondicional. Eu então escolhi ser mãe!
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